Levei o pano da Benigna e do Wagner para passear neste feriado de Páscoa. Foi emocionante vê-lo ser examinado por pessoas que ainda não sabem que o bordado pode ser criativo. D. Áurea (que borda ponto cruz divinamente) disse, encantada: "mas por aqui não temos disso ainda não!" Foi muito legal explicar para ela que o Patchwork era uma tradição norte-americana de costurar retalhos e que o Quilting consistia nas costuras que uniam as três camadas do "sanduíche" (forro, manta e top). Ela me olhou com um ar meio incrédulo e disse: "então não precisa seguir receita não?" Não nesse tipo de trabalho...
Benigna Rodrigues e Wagner Vivan são os artistas autores desse pano. Devagar as coisas que aprendo com eles irão aparecer no blog. O tempo da colheita ainda não chegou, estamos na semeadura!
24 de abril de 2011
16 de abril de 2011
Professores e portas
Pensei estas coisas enquanto tecia estes dois cachecóis xadrezes (a cabeça africana foi souvenir da exposição ÁFRICA, que ocorreu no CCBB do Rio de Janeiro em 2003).
Uma vez, uma faxineira que trabalhava em casa me disse com um vigor inesquecível: "A vida é dura para quem é mole". Era tudo quanto precisava ouvir. Sou-lhe grata até hoje pela franqueza do pontapé duradouro, que lateja na memória toda vez que estou desanimada e lamurienta.
Lembrei da Bete (esse era seu nome), porque essa semana ouvi da Benigna outra coisa que não vai mais me sair da memória: ela disse que o bordado é como uma tatuagem que se incorpora à pessoa que somos para sempre.
Que delícia ouvir isso! Eu que não sou muito de flertar com as coisas, aprecio as relações duradouras, transformadoras, simbióticas. Ela disse também que não precisamos de uma montanha de paninhos bordados, precisamos daquele bordado significativo, que contém uma história, no qual depositamos algo de nós próprios, daquele que gestamos como um filho. É essa diferença que existe entre panos que são adorno e panos que são arte. A proposta deles é totalmente diferente. As revistas estão cheias de riscos e gráficos e moldes e PAP que são muito úteis, mas alguém que quisesse levar para um museu o produto desse trabalho, por mais belo e bem executado que fosse, estaria equivocado.
Sou grata à Benigna (como o sou à Bete, ao Henrique , à Sandra, à Tiyoko, ao Wagner, à Sueli, à Evelyn, à Mônica, à Bel, à Sávia, à Bia) por me mostrar a direção da porta que pretendo abrir.
Uma vez, uma faxineira que trabalhava em casa me disse com um vigor inesquecível: "A vida é dura para quem é mole". Era tudo quanto precisava ouvir. Sou-lhe grata até hoje pela franqueza do pontapé duradouro, que lateja na memória toda vez que estou desanimada e lamurienta.
Lembrei da Bete (esse era seu nome), porque essa semana ouvi da Benigna outra coisa que não vai mais me sair da memória: ela disse que o bordado é como uma tatuagem que se incorpora à pessoa que somos para sempre.
Que delícia ouvir isso! Eu que não sou muito de flertar com as coisas, aprecio as relações duradouras, transformadoras, simbióticas. Ela disse também que não precisamos de uma montanha de paninhos bordados, precisamos daquele bordado significativo, que contém uma história, no qual depositamos algo de nós próprios, daquele que gestamos como um filho. É essa diferença que existe entre panos que são adorno e panos que são arte. A proposta deles é totalmente diferente. As revistas estão cheias de riscos e gráficos e moldes e PAP que são muito úteis, mas alguém que quisesse levar para um museu o produto desse trabalho, por mais belo e bem executado que fosse, estaria equivocado.
Sou grata à Benigna (como o sou à Bete, ao Henrique , à Sandra, à Tiyoko, ao Wagner, à Sueli, à Evelyn, à Mônica, à Bel, à Sávia, à Bia) por me mostrar a direção da porta que pretendo abrir.
25 de março de 2011
Armarinho Lil Weasel
| Mercerie Lil Weasel |
Uma das lembranças agradáveis que guardo da viagem foi a meia-hora que passei visitando este armarinho encantador! Alguém elogiou (pela net) a variedade e a qualidade dos produtos comercializados e a gentileza de sua proprietária, Carine. Para mim foi o quanto bastou para procurá-lo. E não foi fácil, pois ele fica "escondido" numa galeria longe do olhar dos que passam na rua.
![]() |
| Anne |
Visitas virtuais podem ser feitas aqui, mas lá, ao vivo, é muito melhor!
21 de março de 2011
Jean Lurçat
Jean Lurçat foi o artista francês responsável pela renovação que a arte da tapeçaria sofreria na França à partir da década de 40. Os grandes ateliês - notadamente os de Aubusson - viviam de reproduzir e perpetuar uma figuração de gosto renascentista que fez a glória da tapeçaria nos séculos XV e XVI. Mas lá se vão muitos séculos: a função da arte, a sensibilidade do artista, o gosto do público, o diálogo com o seu tempo mudaram desde então. Para quem gosta do suporte têxtil, faltava algo novo.
Lurçat não foi o primeiro. Outros artistas antes dele experimentavam mandar tecer seus trabalhos, mas nenhuma dessas obras era pensada em termos de trama e urdidura, nenhuma delas levava em conta a especificidade da técnica têxtil. Tradições diferentes da francesa já experimentavam no têxtil novos caminhos, vide as propostas moderníssimas da Bauhaus na década de 20.
Quando Lurçat se rendeu à arte têxtil, ele abandonou uma sólida e reputada carreira de pintor. Não foi uma mera troca de suporte, saem os pincéis, entram liços e navetes. A arte dele mudou. Há um Lurçat pintor e outro Lurçat tapeceiro. Saiu de cena o pintor solitário e o que se seguiu foi um homem engajado em grandes projetos coletivos que dialogavam com o seu tempo sem desmerecer a tradição mais antiga donde a tapeçaria se originou. Essa tradição com a qual ele dialogava não era Renascentista, era Medieval.
A grande contribuição que Lurçat trouxe foi a simplificação da paleta de cores usada pelos tecelões e o uso do cartão numerado nos projetos. Vamos entender isso. Um cartão é um projeto gráfico em tamanho natural daquilo que o artista quer reproduzir na tapeçaria. É o "mapa" que deve ser seguido meticulosamente pelos artesãos que operam o tear. É o "risco do bordado". A tapeçaria costuma ser obra monumental. Imagine-se uma peça de 4,0 x 12,0 m. São 48 metros de superfície tecida ponto por ponto, ou grão por grão, ou pixel por pixel. São necessários vários artesãos trabalhando simultaneamente por muitos meses para dar término à obra. Um cartão convencional é uma pintura que deve ser "interpretada", "traduzida" pelos artesãos por exemplo no tocante ao uso da cor, já que a lã não possui o espectro ilimitado de cores que as tintas possuem. Lurçat traçava as linhas dos contornos e atribuía números aos variados campos de cor de seu desenho. Cada número correspondia a uma cor de lã existente e disponível para uso dos tecelões. Ao fazer isso, Lurçat facilitava o trabalho dos artesãos que eram capazes de reproduzir fielmente o desenho nas proporções e cores concebidas por ele.
19 de março de 2011
Castelo d'Angers
O primeiro castelo medieval a gente nunca esquece! Quase não pude conter minha alegria ao ver suas muralhas cercadas pelo fosso-jardim. E imaginar que todas as suas torres possuíam telhados cônicos, mandados retirar há muitos séculos por serem alvo fácil dos incêndios provocados pelas balas de canhão. Mais velha que os castelos é a guerra entre os homens...
As dezessete torres e a muralha da fortificação abrigam em seu interior belos jardins, palácio, capela e outras edificações além da galeria que abriga a Tapeçaria do Apocalipse.

As dezessete torres e a muralha da fortificação abrigam em seu interior belos jardins, palácio, capela e outras edificações além da galeria que abriga a Tapeçaria do Apocalipse.
11 de março de 2011
Apocalypse d'Angers
| Angers jan 2011 |
| Parte do pavilhão escuro para exibição |
| Direito e avesso |
600 anos de existência esmaeceram o colorido intenso da tapeçaria, mas seu avesso guarda a vivacidade das cores. É um show de vermelhos e azuis e verdes e amarelos e ocres trabalhados com lã muito fina, tingida com pigmentos naturais. A técnica empregada foi tão apurada que direito e avesso são idênticos, sem fios pendurados ou nós. Tal precisão permitiu que a tapeçaria fosse fotografada em seu avesso e os negativos reconduzidos à posição original para impressão em livro (L'Apocalypse de Saint Jean Illustrée par La Tapisserie D'Angers - Diane de Selliers Éditeur). Nele podemos verificar lado a lado o desgaste sofrido pelo lado direito da tapeçaria.
Cerca de 30 metros se perderam, mas o que restou não é pouco. O conjunto, mandado tecer em 1373, foi encomenda do duque Louis d'Anjou. É quase inacreditável que possamos ainda hoje admirar esse exemplar têxtil do século XIV.
| Detalhe de maestria técnica |
| O Anjo toca sua trombeta anunciando desgraças sem fim |
| A Besta do Apocalipse |
O museu que guarda a tapeçaria foi construído (em 1954) especialmente para abrigá-la dentro do castelo de Angers, uma das principais atrações do patrimônio francês.
Balanço de Férias
É bem verdade que as malas estão desfeitas há muito, mas o tempo de organizar as lembranças andou escasso. Paciência, que se há de fazer.
O filho voltou de Vancouver com inglês afiado, poucas fotos e muitos games para consumir horas de sua preciosa juventude. Graças a um inverno ameno, os agasalhos tricotados mal saíram da mala. Quem sabe no Pólo Norte eles tenham alguma utilidade...
Do que vi com meus próprios olhos pretendo falar nas próximas postagens. Um pouquinho por vez. No "mano a mano" com Atlas sempre saio perdendo. A carne é fraca e a memória também.
O filho voltou de Vancouver com inglês afiado, poucas fotos e muitos games para consumir horas de sua preciosa juventude. Graças a um inverno ameno, os agasalhos tricotados mal saíram da mala. Quem sabe no Pólo Norte eles tenham alguma utilidade...
Do que vi com meus próprios olhos pretendo falar nas próximas postagens. Um pouquinho por vez. No "mano a mano" com Atlas sempre saio perdendo. A carne é fraca e a memória também.
2 de janeiro de 2011
Winter in Vancouver
Eis aqui a razão pela qual deixei às traças meu blog tão pobrezinho... Precisava despachar esse rapaz para o norte com agasalhos compatíveis com o frio que quase desconhecemos por aqui. Só nessa blusa foram consumidos 900g de lã numa trama bem fechada. A modelagem, para variar, ficou meio tosca. Minha filha disse que parecia as blusas do Ron Weasley, no que eu concordei, só que não dispunha das agulhas mágicas com as quais mama Weasley tricotava tão rapidinho...
Dezembro se foi entre agulhas de tricô e muita expectativa quanto a essa viagem. Agora que ela se consumou, espero que ele aproveite bastante sua recém consquistada liberdade, enquanto volto minha atenção para as coisas que eu mesma espero ver de perto muito em breve. Falarei delas quando voltar. Preciso ainda tricotar alguns gorros para o restante da família antes de poder dispensar minha atenção para o blog.
É bem verdade que todos os agasalhos poderiam ser comprados em lojas, mas muita coisa d'antanho resiste em mim. Uma nostalgia estranha ao calor e à fumaça dos carros que envolvem a megalópole violenta em que vivo orientam meu desejo e meus esforços para uma vida mais chão a chão, em que cozinhamos porque precisamos comer e tricotamos porque precisamos vestir.Good trip, my son!
Dezembro se foi entre agulhas de tricô e muita expectativa quanto a essa viagem. Agora que ela se consumou, espero que ele aproveite bastante sua recém consquistada liberdade, enquanto volto minha atenção para as coisas que eu mesma espero ver de perto muito em breve. Falarei delas quando voltar. Preciso ainda tricotar alguns gorros para o restante da família antes de poder dispensar minha atenção para o blog.
É bem verdade que todos os agasalhos poderiam ser comprados em lojas, mas muita coisa d'antanho resiste em mim. Uma nostalgia estranha ao calor e à fumaça dos carros que envolvem a megalópole violenta em que vivo orientam meu desejo e meus esforços para uma vida mais chão a chão, em que cozinhamos porque precisamos comer e tricotamos porque precisamos vestir.Good trip, my son!
2 de dezembro de 2010
Exposição Coopercotia
Por insistência da Liliam resolvi participar. Estive na companhia dela, da Tiyoko, da Marilena, da Eliza e do Serjão. Não fosse por ela, o pano que fiz em 2006 por ocasião do cinquentenário do livro Grande Sertão: Veredas não teria saído do baú. Estão aí uma boiada, Riobaldo (lábios vermelhos), Diadorim (olhos verdes) e os jagunços numa vereda de buritis, flores agrestes e o sol abrasador do Sertão. Tudo sob o símbolo do infinito (caro à Guimarães Rosa) e da palavra que fecha o livro. Tudo muito denotativo. Se algum mérito há é do autor que pensou todos esses personagens. Minha mão apenas costurou as imagens que ele pensou.
O pano nasceu durante uma oficina de bordado e aplicação que frequentei no no Sesc Pompéia sob orientação de Benigna Rodrigues e Wagner Vivan.
27 de novembro de 2010
Costura de palavras
É próprio do sonho ser volátil. Tenho alimentado meu espírito com imagens tecidas magníficas, coisas que me vêm quando lanço ao mar minha rede desejosa de capturar não o peixe, mas o cintilante movimento de sua escama. Pescadores mais afortunados do que eu será que sonharam seus peixes imateriais antes de atá-los às iscas do urdume?
Levantei hoje com um projeto têxtil todo construído enquanto dormia. Hypnos sussurou em meu ouvido fiapos de memória, palavras antigas, ambições recentes e rascunhou tudo com materiais comuns. Aqui um fio felpudo que dança ao menor sopro, ali o fio de cobre que reforça o esqueleto, acolá a remoção calculada da urdidura para construir janelas que se abrem para o éter ou para um trigal ou para uma duna ou para uma tempestade. Como tecer uma tempestade? Transferir para as mãos que separam as calas e conduzem as navetes carregadas de fios torcidos e retorcidos com cores que se misturam para criar uma imagem que não vi, ninguém viu, mas que precisa existir para fazer sentido?
Minha mão parece estar amarrada e, para não perder o têxtil apenas alinhavo de idéias, costuro aqui as palavras para não botar tudo a perder e desmanchar meu sonho como faço quando puxo o fio ao crochê desalinhado.
Levantei hoje com um projeto têxtil todo construído enquanto dormia. Hypnos sussurou em meu ouvido fiapos de memória, palavras antigas, ambições recentes e rascunhou tudo com materiais comuns. Aqui um fio felpudo que dança ao menor sopro, ali o fio de cobre que reforça o esqueleto, acolá a remoção calculada da urdidura para construir janelas que se abrem para o éter ou para um trigal ou para uma duna ou para uma tempestade. Como tecer uma tempestade? Transferir para as mãos que separam as calas e conduzem as navetes carregadas de fios torcidos e retorcidos com cores que se misturam para criar uma imagem que não vi, ninguém viu, mas que precisa existir para fazer sentido?
Minha mão parece estar amarrada e, para não perder o têxtil apenas alinhavo de idéias, costuro aqui as palavras para não botar tudo a perder e desmanchar meu sonho como faço quando puxo o fio ao crochê desalinhado.
21 de novembro de 2010
Cardigã do Léon
Quando me propus a tricotar este cardigã, pensei que as tranças e o bolso embutido me dariam trabalho. Ledo engano, a modelagem é quem deu. Não ficou boa, na verdade, e tive que improvisar com fita de gorgurão um reforço nos ombros e no decote para que eles não ficassem tão desabados. Voilà! Eis a minha blusa do Léon.
Léon K. foi meu professor de Estética na faculdade. Durante suas aulas ele fazia circular entre os alunos belos volumes da Skira de sua coleção particular. As reproduções ainda eram coladas uma a uma nas páginas mais escuras e encorpadas da encadernação, uma preciosidade. Era assim que ele ilustrava seus comentários. Não havia, na época, a fartura de livros de arte que encontramos hoje em nossas livrarias (a Livraria Cultura era só uma lojinha e Jeffrey Bezos ainda não tinha sonhado com a Amazon.com). Imagino-o no aeroporto, voltando de suas viagens, sempre com o mesmo cardigã e as malas repletas de livros. Eram dele uma expressão aguda e sorridente feita de pequeninos olhos azuis e uma maneira peculiar de dizer "muita vez".
V.V. (para quem fiz a blusa, o cachecol e o gorro) também foi aluno desse professor. Quando saímos para garimpar livros nos sebos próximos à Fnac, fazemos pilhéria com a possibilidade de estarmos comprando os livros do Léon. Quero crer que esses volumes que hoje atulham nossa biblioteca não trocaram o endereço dele pelo nosso, mas certamente eles foram de alguém. Alguém os amou intensamente por um tempo e depois os abandonou. Sorte tivemos nós, que não tememos as traças e gostamos de acolher livros usados.
Léon K. foi meu professor de Estética na faculdade. Durante suas aulas ele fazia circular entre os alunos belos volumes da Skira de sua coleção particular. As reproduções ainda eram coladas uma a uma nas páginas mais escuras e encorpadas da encadernação, uma preciosidade. Era assim que ele ilustrava seus comentários. Não havia, na época, a fartura de livros de arte que encontramos hoje em nossas livrarias (a Livraria Cultura era só uma lojinha e Jeffrey Bezos ainda não tinha sonhado com a Amazon.com). Imagino-o no aeroporto, voltando de suas viagens, sempre com o mesmo cardigã e as malas repletas de livros. Eram dele uma expressão aguda e sorridente feita de pequeninos olhos azuis e uma maneira peculiar de dizer "muita vez".
13 de novembro de 2010
Reflexão sobre tapeçaria
Todos os nossos gostos e inclinações pessoais nos vêm de maneira indireta. Nada de muito racional. A decisão de perseguir essa inclinação primeira vem depois. Somos tocados por uma atitude, um filme, uma roupa, uma piada, uma inveja, um elogio, uma canção, uma conversa, uma história, a lista não tem fim. Jamais procurei no meu passado a razão pela qual gosto de Idade Média, embora desconfie a razão pela qual gosto de tapeçaria. Posso revelar: adoro quadros, mas detesto tinta, aquela coisa pegajosa que escorre. Sempre gostei de trabalhos manuais (tricô, crochê, bordado). Quando descobri que se podia construir arte com fios, a paixão foi imediata. Quadros podiam ser bordados ou tecidos, enfim. Mas o encantamento durou pouco, pois quadros têm o seu veículo próprio: telas e tintas. Van Gogh era capaz de pintar teares lindamente, mas desse-lhe um tear para operar talvez ele produzisse um punhado de nós. Mal comparando, para quê plantar alfaces cavando buracos com bisturis?
Então era isso, a tapeçaria era só a atividade de gente invejosa da pintura? Insatisfeita, fui estudar e encontrei artistas que não são nem nunca quiseram ser pintores. Suas tapeçarias são focadas nelas mesmas e refletem um diálogo com os materiais têxteis que lhe são próprios. Pouco importava se a tapeçaria era figurativa ou abstrata, bi ou tridimensional, costurada, bordada, crochetada, tricotada ou tecida. Foi grandioso! Enfim a Tapeçaria com inicial maiúscula, liberta da pintura.
Essa imagem que ilustra a postagem bordei sobre talagarça usando meio-ponto e casa-caiada. Trata-se da composição de imagens que recolhi em diversas iluminuras medievais. No original, a dama à direita tinha a linha preta do contorno do cabelo lindamente verde no interior da mancha de cor, como se os fios fossem soprados pelo vento. Impossível reproduzir em talagarça sem que minha gentil dama parecesse uma Medusa. Em tear ficaria muito bom, hoje o sei.
Quando bordei, a tapeçaria ainda não existia para mim com linguagem própria. Por isso a bordei. Hoje as coisas se complicaram, pois, para ser coerente, ou não bordo, ou salto o círculo de giz e vou fazer outra coisa.
Então era isso, a tapeçaria era só a atividade de gente invejosa da pintura? Insatisfeita, fui estudar e encontrei artistas que não são nem nunca quiseram ser pintores. Suas tapeçarias são focadas nelas mesmas e refletem um diálogo com os materiais têxteis que lhe são próprios. Pouco importava se a tapeçaria era figurativa ou abstrata, bi ou tridimensional, costurada, bordada, crochetada, tricotada ou tecida. Foi grandioso! Enfim a Tapeçaria com inicial maiúscula, liberta da pintura.
Essa imagem que ilustra a postagem bordei sobre talagarça usando meio-ponto e casa-caiada. Trata-se da composição de imagens que recolhi em diversas iluminuras medievais. No original, a dama à direita tinha a linha preta do contorno do cabelo lindamente verde no interior da mancha de cor, como se os fios fossem soprados pelo vento. Impossível reproduzir em talagarça sem que minha gentil dama parecesse uma Medusa. Em tear ficaria muito bom, hoje o sei.
Quando bordei, a tapeçaria ainda não existia para mim com linguagem própria. Por isso a bordei. Hoje as coisas se complicaram, pois, para ser coerente, ou não bordo, ou salto o círculo de giz e vou fazer outra coisa.
9 de novembro de 2010
Tapeçaria: um pouco de história
| Desenho feito pelo artista plástico Wanderley Ciuffi |
Quando se fala em tapeçaria artística, é necessário definir qual técnica temos em mente. A mais prestigiosa é sem dúvida aquela tapeçaria mural figurativa que os flamengos (da Flandres belga e francesa) trabalharam à perfeição. Manufaturada em enormes teares de alto ou baixo liço, o nome que mais associamos a esse tipo de tapeçaria é Gobelin. Esse nome pertencia ao hábil tintureiro que fornecia a lã necessária para a confeccção das tapeçarias que cercavam de luxo a nobreza francesa. Mais tarde, a oficina que produzia essas tapeçarias para o rei chamou-se Manufacture des Gobelins.
Essas tapeçarias eram muito cobiçadas, pois conferiam enorme status a seus possuidores. Seu preço era altíssimo e os nobres se vangloriavam de possuí-las às dezenas. Forravam com elas as paredes frias de seus castelos, escondiam portas e janelas, serviam de biombo, enriqueciam o dote de princesas, guarneciam até cabines de navios. Aqueciam os ambientes. Quando a corte partia para alguma aventura, lá se iam as tapeçarias para os baús que as transportavam não sem dano. A pintura mural, nessa época, era a "prima pobre" da tapeçaria, já que seu custo era baixo e ela possuía a enorme desvantagem de não ser portátil. Os pintores, então, passaram a fazer projetos para serem transpostos em tapeçaria. Estávamos no Renascimento e grandes artistas emprestaram seu talento para com as tintas para o âmbito têxtil. A técnica necessária para traduzir com fios algo que foi pensado com tinta nunca foi tão apurada. A tapeçaria conheceu seu auge. Paradoxalmente, o grande esplendor que a tapeçaria alcançou com essa contribuição acabou por esterilizar e enrijecer o talento dos verdadeiros tapeceiros, daqueles que pensavam em termos de trama e urdidura, daqueles que buscavam soluções têxteis para problemas têxteis. A tapeçaria virou cópia da pintura. O gosto declinou. A tapeçaria quase morreu.
Jean Lurçat (1892-1966)
Foi ele o responsável pelo "renascimento" do interesse pela tapeçaria numa ótica moderna. Ele procurou simplificar e padronizar o conhecimento técnico necessário à produção de tapeçaria e reconduzir a feitura do cartão para o artista-tapeceiro detentor de uma linguagem artística própria. Estava aberto o caminho para que a arte moderna se apossasse dessa antiga técnica e a colocasse num novo patamar. Ele foi pintor, ceramista e tapeceiro. Antes de mandar tecer suas tapeçarias nas grandes oficinas remanescentes da grande época da tapeçaria, ele as mandava bordar por sua mãe ou esposa. A tapeçaria também se exprime no bordado.
Tapeçaria de Agulha
Menos prestigiada que sua irmã tecida, a tapeçaria bordada sempre esteve mais associada à decoração, à feitura de almofadas e estofamento de cadeiras. Poucos artistas elegeram-na como veículo para suas criações. (Temos Genaro de Carvalho, Madeleine e Concessa Colaço no Brasil). Borda-se geralmente com lã sobre talagarça, juta ou tecido e deve-se recobrir toda a superfície do trabalho com pontos de agulha. Existem numerosos pontos que se podem usar, sozinhos ou misturados. Há uma complicação adicional, já que um dos pontos mais populares que dispomos para bordar a talagarça também se chama Gobelin. O maior desafio para quem gosta desse tipo de tapeçaria e quer propô-lo como arte é desvincular sua feitura das cópias que se reproduzem aos milhares seguindo gráficos ou impressão prévia.
Todas as tapeçarias que ilustram essa postagem são de agulha e foram executadas por mim. Com exceção da primeira, projeto original de meu pai artista, as demais imagens foram colhidas em livros de história da arte. Elas decoram minha casa. Outra hora conto a história de cada uma delas.
5 de novembro de 2010
Fio matizado
Minha mãe sempre fez campanha contra brinquedo que brinca sozinho e não deixa espaço para a criança imaginar. Faz de conta que essa tampa é uma panelinha e este mato um banquete no Maxim's. Pronto, mastigávamos as azedinhas que mal e mal viam água. Modelar o barro, então, era a glória, pois tudo era possível. Tomei muito vermífugo para expulsar os excessos de minha imaginação ou as carências de minha condição, leia-se como quiser. Mas no tear, quando uso fio matizado (que eu adoro!), ele brinca sozinho e eu termino o pano me sentindo um tanto enganada. No tear manual, quando não se trabalha a padronagem, a graça está em misturar os fios para criar nos tecidos efeitos variados de cor, textura, transparência, brilho... Quando se usa o fio matizado a preguiça parece conduzir nossa mão.
1 de novembro de 2010
Tapeçaria Artística - Links II
Mais alguns links para ampliar a pesquisa anterior. Quem souber mais, contribua, pois conhecimento é um oceano com muitos mares. E dá-lhe vento e vontade para navegar. Eta que isso eu tenho!
França
O Institut de France é uma instituição acadêmica que agrega as mais prestigiosas academias nacionais daquele país. Em 2008, a Académie des Beaux-Arts produziu um colóquio sobre Tapeçaria Contemporânea Européia e chamou alguns especialistas para falar sobre o assunto. Compareceram artistas, historiadores, curadores, críticos, restauradores e todo pessoal interessado nesse assunto. Selecionei alguns textos que me pareceram muito instrutivos.
La Tapisserie du XXe siècle (Gérard Denizeau) - o texto desse historiador enfoca sobretudo Jean Lurçat
L'importance du mouvement de la "nouvelle tapisserie" depuis les années 70 jusqu'à aujord'hui (Françoise de Loisy) - fotos de tapeçarias contemporâneas
Europa transnacional
European Tapestry Forum: An artist-led tapestry initiative (Thomas Cronenberg) - relato das atividades desenvolvidas por este grupo
European Tapestry Forum - Site dessa associação de artistas
Polônia
Polish Fibre Art to the Threshold of the 21st Century (Jolanta Piwonska) - curadora do Museu de Lódz historia a contribuição dessa verdadeira vanguarda que foi a "escola polonesa" para a Arte Têxtil
Wlodzimierz Cygan - página deste artista contemporâneo
Noruega
I Love Tapestry - trata-se de uma galeria virtual com belos trabalhos contemporâneos
Suécia
Annika Ekdahl - site da artista com preciosas indicações na net
Finlândia
Aino Kajaniemi - página com o trabalho desta artista
Espanha
Liceras de Valdeolea - blog com o trabalho bem documentado de um grupo de artistas que trabalha nesta pequena cidade da Cantábria
Estados Unidos
Textile Society of America - Fórum internacional sobre têxteis
The New York Guild of Handweavers - Site riquíssimo de informação sobre a guilda têxtil
Smithsonian - ver a coleção têxtil
The Gloria F Ross Center for Tapestry Studies - ver a impressionante galeria de artistas têxteis modernos
Uruguai
Aldo Rissolini - página do artista
França
O Institut de France é uma instituição acadêmica que agrega as mais prestigiosas academias nacionais daquele país. Em 2008, a Académie des Beaux-Arts produziu um colóquio sobre Tapeçaria Contemporânea Européia e chamou alguns especialistas para falar sobre o assunto. Compareceram artistas, historiadores, curadores, críticos, restauradores e todo pessoal interessado nesse assunto. Selecionei alguns textos que me pareceram muito instrutivos.
La Tapisserie du XXe siècle (Gérard Denizeau) - o texto desse historiador enfoca sobretudo Jean Lurçat
L'importance du mouvement de la "nouvelle tapisserie" depuis les années 70 jusqu'à aujord'hui (Françoise de Loisy) - fotos de tapeçarias contemporâneas
Europa transnacional
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Noruega
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Estados Unidos
Textile Society of America - Fórum internacional sobre têxteis
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